Álcool e direção: uma combinação fatal

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Autor: Arthur Guerra de Andrade (*)

Em 2007, as festas de fim de ano e as movimentações nas estradas brasileiras foram marcadas pelo recorde de acidentes de automóveis e, consequentemente, de mortes. Os números trouxeram à tona a discussão e a apresentação de propostas de ações para a situação do trânsito no País.

Em períodos críticos como este, campanhas isoladas são veiculadas, com o objetivo de diminuir as estatísticas estarrecedoras dos acidentes. Este ano, o abuso no consumo de bebidas alcoólicas contou também com a ajuda da imprudência dos motoristas e aumento do número de carros nas estradas, motivado em grande parte pela crise aérea.

Fontes oficiais e estudos pontuais indicam a necessidade de ênfase maior nos programas de prevenção e na fiscalização a fim de evitar o caos, tanto em relação aos custos sociais, quanto à triste realidade dos personagens que engrossam as estatísticas. Providências devem ser tomadas para que se modifique este cenário, especialmente entre os jovens, vítimas do descaso, da imprudência, da impunidade e, pior que isso, da falta de percepção dos riscos.

Instituições como o Denatran e o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelam números espantosos sobre as vítimas fatais e os custos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito.  E o que tem a ver o álcool com essas estatísticas? O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - Cebrid - fez um levantamento nacional envolvendo as 108 maiores cidades do País. O estudo revelou que 2% da população brasileira (mais de um milhão de pessoas) já teve complicações no trânsito em função do uso de álcool e outras drogas. Os homens são maioria, independente da faixa etária.

Pesquisa recente da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), revela que 43% dos indivíduos entrevistados que beberam, consumiram pelo menos três doses em festas antes de dirigir. Entre a população adulta entrevistada, cerca de 34% pegaram carona com o motorista que havia bebido além da conta. Dados parciais ainda não publicados referentes a acidentes de trânsito, como os do pesquisador Júlio Ponce da Faculdade de Medicina da USP, feito a partir de 908 laudos do Instituto Médico-Legal e de dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), mostram que cerca de 48% dos motoristas e motociclistas que morreram em acidentes de trânsito na capital paulista no ano de 2005 haviam consumido álcool antes de dirigir. Entre os condutores de carro, o índice de alcoolizados chega a alarmantes 56,6%. A pesquisa revela que entre os motoristas de automóveis que tinham consumido bebida, 100% ingeriram quantidade acima do que prevê a legislação (0,6g/l). Os condutores apresentaram, em média, concentração alcoólica de 1,7g/l - quase duas vezes maior do que o permitido pela lei. 

Pesquisa sobre comportamento no trânsito da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, traz dados preocupantes: 80% dos 1.034 universitários entrevistados nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro não dirigem após beber, mas retornam no carro de amigos que ingeriram bebidas alcoólicas. Já 36% destes estudantes disseram ir e voltar de festas sem beber, enquanto 31% dirigem mesmo após ter bebido pouco.  Desta forma, o resultado mostra que mesmo os jovens que não bebem estão sob considerável risco de morte.

Um outro estudo, realizado por Antonio Nery Filho, com dados sobre o impacto do uso de álcool e outras drogas em vítimas de acidentes de trânsito, traz dados semelhantes aos já citados. A pesquisa, feita dentro dos serviços de emergência e IMLs de Brasília, Curitiba, Recife e Salvador, constatou que, do total de 831 vítimas não fatais investigadas, havia a presença de algum nível de álcool no sangue em 61,4% dos casos. Em quase um terço da amostra, 27,2%, a quantidade excedia o valor de 0,6 g/l. Dentre as 34 vítimas fatais incluídas, houve positividade em 52,9% dos casos.

Estudos internacionais também demonstram que o risco de acidente automobilístico decorrente do uso de álcool aumenta significativamente nos motoristas com menos de 21 anos de idade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a relação entre os acidentes de trânsito e o consumo de bebidas vitimou, em 2006, quase 18 mil pessoas. A maioria deles, jovens de 21 a 34 anos. Em 81% dos casos de acidentes fatais, foram constatadas pessoas com dosagens de álcool superior ao permitido.

O esforço de conscientização e a elaboração de políticas abrangentes e contínuas não devem estar limitados a períodos críticos como este. A mudança dessa triste realidade só poderá acontecer a partir do intenso e permanente trabalho de informação, educação e fiscalização com a participação dos diversos segmentos da sociedade. A partir daí, os mandamentos de não dirigir quando beber e de não beber quando for dirigir serão incorporados pelos motoristas, assim como aconteceu com a conscientização da população para o uso do cinto de segurança.

(*) Psiquiatra, presidente-executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool - CISA.

 
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